sábado, 31 de outubro de 2020

moleskini I


[Foto de Federico Hurtado | 2011]

 

Sem querer

As páginas deste caderno

Foram sendo escritas

E povoadas

E concebidas

Cuja função não

Se sabe

Nem que haja

Nem que não haja

São pensamentos

Verbalizados

Ou versos pensados

E se pretende

Assim

Indefinível

E inventável.

Isso é um poema

Ou uma brisa

Efêmera?

 

[Moleskini | 2019.03.09]


compositor de destinos

 

[by Akira Kusaka]


.

.

.

o tempo
tictaqueando
e eu
aqui
sentindo
vivendo
fluindo
e a vida
se esvaindo

"por falta de interesse, fica cancelado o amanhã"

só Hilda me entende. de fato.

[Set | 2020]

meu emaranhado de ondas

pálida
esquálida
estática
constante
errática
pensante
terça.

[errante]
inerte

[Out | 2020]
[Pinterest | 2020]

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

ainda quero morrer de amor

 

[Before Sunset | 2004]

Hoje quero indicar essa trilogia cinematográfica que pela qual tenho verdadeira fixação. A trajetória percorrida nos três filmes narra a história de amor de dois jovens ao longo dos anos, contemplando nuances comuns a boa parte dos relacionamentos em três tempos diferentes. Até aí não seria propriamente uma novidade, afinal, somos bombardeados por histórias românticas a todo o momento, e aqui parafraseando Celine numa das cenas de Before Sunset, porque “o amor vende”. No entanto, o que não passa despercebido e que seja talvez o grande diferencial na direção de Richard Linklater, são certamente os diálogos. É notório o destaque que ele dá a este elemento na composição do filme, como também é a profundidade que intenciona mostrar na interação entre as personagens, através de uma interlocução bem construída, articulada e repleta de simbologia. O resultado não seria outro: atuações sensíveis e que, de tão reais, sugerem quase uma fusão entre ator e personagem, como se não fosse possível dissociar um do outro. 


[Before Sunrise | 1995]

É o que particularmente me cativou nessa sequência: a surpresa não vem necessariamente da trama, do cenário ou de efeitos especiais; embora a fotografia belíssima de Viena, Paris e Grécia, bem como seus pontos turísticos, tenham sido delicadamente explorados. No entanto, esses componentes ficam em segundo plano quando comparados à comunicação que, cuidadosamente estruturada e estrategicamente pensada, gera uma aproximação natural entre o espectador e a narrativa; isto é, um enredo que busca se aproximar ao máximo de uma história real, mas com os elementos poéticos, como convém às histórias de amor. O resultado da cadência dialética utilizada nos três filmes marca a linguagem e a intenção de comunicar do diretor, e os torna atraentes possivelmente pela identificação provocada quase de forma imediata com as personagens, ou com ao menos algum aspecto destes, e um apelo irrecusável para ver o filme até o fim.


[Before Sunrise | 1995]

 

Gosto dos três porque além de coesos e bem articulados tanto em imagens quanto na narrativa, têm um tempo e um enredo próprio para cada momento de uma relação. No entanto, nutro um afeto especial pelo segundo filme, Before Sunset (Antes do Pôr do Sol), e explico o porquê: cativa-se essencialmente o tom poético e simbólico do momento do reencontro, da expectativa dos amantes criada pela distância e pelo tempo entre eles, das tantas palavras que ficaram por serem ditas durante o hiato e que, ali, naquele momento, foram finalmente reveladas, e mais outras impressões que embora românticas não têm nada de clichê. Isto tudo me seduziu no ato. 

A resenha e a forma como ela é construída e desenvolvida me encanta genuinamente sempre que assisto e reassisto, e me provoca sensações de conforto, prazer e acolhimento (talvez porque também eu compartilhe com a protagonista angústias e sentimentos acerca do que é o amor, a paixão e o que são os relacionamentos). Algo como um extasiamento, um deslumbre que me faz querer viver um amor assim (se já não o tiver vivido), um desejo de ser consumida pelo filme enquanto o consumo. 


[Before Midnight | 2013]


Ao que parece essa resenha se estendeu mais do que eu planejava, mas isso me traz à luz o poder da arte, ou a sua função (se é que ela existe declaradamente), de te fazer sair do seu lugar de conforto, de suscitar em você pensamentos, reflexões, ideias e modelos de vida pra além do convencional. Só por isso já valeria a pena. Não é só sobre um filme. Em se tratando de arte, nunca é uma coisa só.




[Foto by Villi.Ingi]




Existe uma luz que vem até nós mas, apesar de tudo, não chega até nós. Existem muitos sentidos em tudo o que dizemos e fazemos.


[trecho do filme Garoto (2015), de Júlio Bressane]

sábado, 24 de outubro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

ânsia da idade

[Ethereal And Atmospheric Female Portraits | By Alessio Albi]

no feixe de luz
que incide sobre teus cabelos
vejo a dura realidade
das manhãs tristes
da angústia engasgada
e da ansiedade
que persiste
sabes que a vida
é isso
então, porque te importas?
melhor é viver
absolutamente
como se amanhã
não fosse chegar
nunca.

[Ago/20]


Lembro-me de quando compus esse poemeto. Ainda tendo a me sentir impostora e talvez até petulante ao me referir a mim como alguém que escreve poemas. Primeiro, porque o meu acervo é pequeno; depois porque, embora admiradora e consumidora assídua desde nova desse tipo de texto, nunca supus que pudesse fazê-lo. Honestamente não me considero capaz nem articuladamente boa o suficiente para esse ofício que considero tão raro e essencial para a existência humana. Mas não pude conter algumas ideias que gritam em mim e que encontraram, na poesia, um meio espontâneo de se expressar. 

Pois bem, dizia de quando escrevi este conjunto de palavras e a lembrança que tenho é a de que ele surgiu em meio a uma semana difícil de agosto, como tem sido muitos dos meus últimos dias, em que eu estava mergulhada numa crise aguda de ansiedade, repensando vários pontos da minha vida pessoal e profissional, duvidando de outros tantos e desejando profundamente não me sentir mais assim. E então, essa mistura ácida de sensações deu vazão a estes versos simples mas honestos, que além de me aliviarem a alma, me trouxeram também a compreensão de que eu não tenho o controle de tudo, muito ao contrário; mas, mais que isso: de que eu não preciso de fato ter. Escrever conforta. Se minha recomendação servir pra alguém, está feita.

doidice

[Portrait | Nirav Patel]



Sou um fio solto com extremidades desapontadas, trêmulo à menor vibração da matéria adjacente. Sou anel de metal e papel, rígido ao fogo e cedente à água que escorre constrangida dos olhos à boca. Assim se rompe o compromisso do descompromisso e já não amo omisso. No tempo só existe ausência; na espera, vazio. Sólida é a solidão, somente. O resto é abstração, é disforme como o texto, é ilusão. É porque o presente quase não existe. 

[H. Croscato | 2013]


 

Nunca consegui decifrar por completo esse texto. O que sei é que eu gosto bastante dele. Desde a sua feitura me suscita, quando leio, interpretações múltiplas. As imagens que o autor usa, as metáforas, ideias sobre amor, solidão e tempo são questões que exercem na minha vida uma influência real e constante, como também norteiam muitos dos pensamentos que habitam minha mente caótica. 

Sempre me interessei por temas que tangem o surreal, o além do real, tanto no mundo das imagens quanto no das palavras. Passagens que flertam com solidão, abstração e amor, embora não palpáveis, existem com uma força potente. Pra mim, pelo menos. Acredito que a frase que encerra o excerto é, além de verídica e paradoxal, muito precisa e poética. Agradeço às mentes barulhentas que traduzem suas urgências através dos versos e das palavras. Que continuemos assim.





sábado, 10 de outubro de 2020

os caminhos difíceis estão abertos

Incerta de meu desejo
Busco encontrar-me inteira
Aos olhos que me vejo
Não sinto completude nem vazio
A angústia da vida
O estado do amor
A paixão esquecida no tempo
Quando terão respostas
Essas questões?
Quando me orgulharei de mim, eu?
Deixo o tempo passar
(Ele o faz contra minha vontade)
Saberei o tempo certo?
O minuto exato? O segundo perfeito?
O instante fatídico?
Hoje amanheci em cólera...
Nada do que escrevo aqui parece
Fazer o mínimo sentido
(Ainda assim, escrevo)
Teimo escrever.
Talvez porque transborde
Não me contive
Precisa ter nexo? Sentido? Lógica?
Mas tão ilógica é a vida!
E a tendência do pensamento...
Acordei agora e não ingeri
Ainda nenhum de meus
Vícios
Estou, por assim dizer, ou,
Como gostam os conservadores,
Sóbria
Mas sóbria de quê?
De irrealidades? De demônios humanos?
De monstros de carne e osso?
O que me mantém a caneta
Às mãos?
Não contive
A tinta da caneta me parece
Fascinante
Como me parecem as ideias de
Um mundo melhor
 
[colagem | 2016]

A arte me salva e
Mesmo assim
Não sei o que fazer
Com ela
Saberei o que fazer de minha vida?
Comecei estes versos sobre os quais
Pensava: “será um poema”
Agora já não penso mais:
Escrevo.
Não sei por quais vias
(E linhas)
Se deu meu pensamento
E por quais outras
Me perdi da ideia original
Oficial
“Tudo se desoriginaliza”
(Talvez isso seja um neologismo)
Às vezes, parece que a gente
Escreve sem parar
E isso é porque mora um mundo
Dentro da gente
Ou talvez porque esta caneta
E esta página
Sejam convidativas à
Verbalização do pensamento
Tentei escrever um poema
Que intitulei PANDEMIA
Não saiu nada. Quase nada.
Ideias vagas sem conexão.
Tem dias que a gente tá
Mais pra contemplar.
Faz frio. 14° neste momento.
Catorze graus é frio num
País tropical.
O que a dureza do brasil
Pode fazer com meu
Coração?
Talvez só um
Tempo muito distante
Me dará essa resposta.
Mas sinto o amor
No que escrevo.
Ou a possibilidade dele.
Talvez eu continue. Talvez seja este o
Último verso.

[qualquer dia de 2020 | em meio à pandemia]

agora, cinema.



[Marjorie Estiano | O Garoto, 2015]

"Você, quando nasce, é quase nada. Mais um pouco e descobre a pele. Depois se acostuma com a sua pele. Daí em diante a alucinação não tem mais fim. Tem um segredo escondido em você. Cubra o rosto, vá para o deserto. O mistério do amor é ainda maior que o mistério da morte."




Esse filme impactante de 2015, com direção de Júlio Bressane e atuações precisas de Marjorie Estiano e Gabriel Leone! Indicação pra quem gosta de narrativas mais existencialistas e fora do lugar comum. Tenho sincera identificação com obras de cinema que evidenciem e valorizem o diálogo, o discurso e dêm  destaque a essa perspectiva da linguagem. Portanto, eis aqui mais um trecho, de alguns outros, que me prenderam a atenção no ato, e o link de acesso ao filme que está disponível integralmente (e em ótima qualidade) no YouTube:

  

"Eu não prometo nada. A matéria que constitui o futuro é a insegurança. Eu tenho um fantasma dentro de mim. Eu me escondo dele, é o meu pesadelo. Meu corpo fala por mim, sobretudo, meu ombro fala por mim."



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

foto poesia


[foto por Yashiro Imazu | 20]

do alto do meu ser

da veia de angústia
que ainda cintila
das horas amargas
que os dias
carregam
junto também está
a poesia


impregnada no fel
das coisas
intrínseca ao acontecimento
pregada na vida
como uma marca
irreparável

porque anda por esse caminho
a poesia
poderia eu chamá-la
vida
tortura e gozo
caminho indelével
do qual todos
padecemos

se roubei teus versos,
poeta,
é para que me leias
e se reconheces
os teus
nos meus versos
é que cumpriu
tua sentença
a poesia

[Set/20]

um surto. um respiro dos dias difíceis. a foto do amigo artista me encontrou como me encontra sempre a poesia, como alívio. por isso o título, como também o poema, se impuseram com clareza. fiquei maturando os tons de azul e tentando ressignificá-los em versos. eis o resultado. eu gosto de dizer que a poesia me salva. e isso é uma verdade absoluta pra mim. me salva sempre, até de mim mesma.

encantamento

[on the road]  é meia noite lembranças de outrora desejos de agora daqui, de dentro, do centro de mim "munida das minhas bics" exp...